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Fedra Miriam escreveu
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Este meu Verão foi altamente... itinerante. Pois é. Viajei que me fartei. E a ilha de Santa Maria esteve incluída no roteiro. E ainda bem que tal aconteceu porque é uma ilha linda. A Ilha de Gonçalo Velho revelou-se uma caixinha de pequenas e valiosas surpresas. Gostei imenso. E ando aqui às voltas a dizer que gostei e que isto e que aquilo e não vos digo porquê. Enfim, foi o sol a mais que apanhei na moleirinha... Já tinha ouvido falar de Santa Maria. Tinha ouvido dizer que era a “Ilha do Sol”, a mais seca de todas as suas irmãs açoreanas, o Sahara dos Açores, a que tinha o melhor clima, etc. Do que não me tinham falado ainda era das suas gentes. Fui a Santa Maria por altura da Maré de Agosto. Mas ficou tudo visto muito em cima do joelho e decidi voltar. Voltei mais duas vezes, a última delas no fim-de-semana passado. E só não fui outra vez porque esteve mau tempo e o Golfinho Azul não saiu. Apaixonei-me pela beleza singular da Praia de São Lourenço e pela placidez e amabilidade endémicas dos marienses. Já não nascem pessoas assim. Deus fez apenas uns quantos e depois deitou fora a forma. Já não há muitos lugares no mundo onde se possa andar sozinho, por montes e veredas, sem ter de recear nada nem ninguém. Nas palavras de um mariense “aqui ninguém faz mal a ninguém”. São verdadeiramente um povo de excepção, especialmente numa altura em que a lei da vida é quase “lixa o parceiro antes que ele te lixe a ti”. Eu meti a mochila às costas e, sozinha, fui no Golfinho para Santa Maria. Os amigos diziam “És doida! Sozinha numa ilha que mal conheces!” A mãe não fugia à obrigação maternal: “Cuidado com os homens de Santa Maria. Sozinha, credo!” E eu não via razão para tanto melindre. E continuo sem ver. É uma ilha simpática e calorosa que nos diz à chegada “Bem-vindo, se vens por bem”. E até se fossemos por mal, creio que ela diria o mesmo. Santa Maria é música. Um misto de terra e paraíso. É estar deitada na Praia de São Lourenço com o sol nas costas e a olhar o mar. A praia tem andado deserta. Sinto-me afortunadíssima por ter uma praia só para mim. E não é só mais uma praia. É aquele pedaço de areia abrigado numa baía que se enrosca languidamente na extensa escadaria de vinhas...
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E os Anjos? O ar parado e quente que nos envolve e nos dá sono e nos faz sorrir e pensar “Complicamos tudo quanto é simples. E, afinal, é só querermos”. O ar cálido e sereno que contrasta com a violência mal contida das ondas que sovam as rochas. E do pequeno bar de uma simplicidade branca e deliciosa, eu vejo tudo. Não me canso de gabar Santa Maria. E o interessante é que nem sou de lá. Sou terceirense de gema, filha da ilha da festa rija, orgulhosa das suas gentes. Ainda vou falar da minha terra, mas agora isto é como tudo na vida: por afinidades e paixões. E agora amo Santa Maria. Quando passar a amar outra coisa, escrevo sobre ela. Mas agora deu-me para isto... Subir o Pico Alto a pé. Custou-me mas valeu a pena. E logo eu que gosto tanto de me mexer como uma preguiça. Fiquei a arfar mas valeu a pena. Chovia quando subimos o Alto Pico, como dizem invariavelmente os turistas nórdicos. Mas a vista dos quadradinhos verdes que parecem uma manta de retalhos merece o esforço. Primeiro, estava encoberto. E depois foi como se uma manápula gigante chegasse e afastasse o nevoeiro. E então vi os salpicos de casas brancas no verde dos cerradinhos que tem como vizinho o mar azul do Atlântico. Apetece saltar para cima de uma caixa de pirolitos vazia e escorregar por aquela lisura verde abaixo. Uma aldeia acolhedora. E o presépio de Santa Maria que é Santa Bárbara? A Glória definiu esta freguesia na perfeição com a metáfora “Santa Bárbara é um presépio”. É lá que quero morar. Colinas e vales que se vão sobrepondo harmoniosamente e casinhas brancas e pequenas com barras azuis distribuídas por sobre eles. Como o homem que espalha o milho para os pombos com a mão assim parece que aconteceu com as casas de Santa Bárbara. Longe de estarem empilhadas como sacos de farinha num armazém, estão organizadas de forma a manterem a sua unidade como casas de uma mesma freguesia, mas suficientemente distantes para nos permitirem virmos cá fora de manhã espreguiçarmo-nos em pijama sem nos preocuparmos com o vizinho. E também podemos tomar o pequeno almoço no quintal, como faz a Glória. Inclusivamente, Glória deixa as suas cadeira plásticas azuis (para condizer com as barras da casa) cá fora, de noite e de dia, e ninguém lhes toca.
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E o que é que isto nos diz dos Marienses, das boas gentes de Santa Maria? Deus, que dizer das gentes? Não há muita gente como os Marienses. Na verdade, já há bem poucas. São “uma espécie em vias de extinção”, disse a Maria Helena de boca aberta. Vinda do Continente, ainda que de Vila Verde, uma aldeia nortenha, a bióloga diz que nunca viu uma coisa assim. Pudera! Trataram-nos tão bem. Sem nos terem visto nunca, -duas raparigas sozinhas, de mochila às costas, com flagrante ar de turistas, trataram-nos como família e levaram-nos para todo o lado. Andei, assim, a conhecer a ilha de Santa Maria à(s) boleia(s). Andei durante vários dias à boleia. E isto é uma das coisas que mais me impressionou. Presentemente, é raríssima a pessoa que mete dentro do seu carro um perfeito estranho com o intuito de o ajudar a chegar a qualquer lado. As pessoas, geralmente, ou tem medo de ser assaltadas, violadas, raptadas, mortas (credo, que filme), ou simplesmente não estão para se maçar. Em Santa Maria é exactamente o oposto. Vêem uma pessoa com mochila às costas e antes que a pessoa tenha tempo de espetar o polegar, o carro já parou e perguntou se queremos boleia. E ainda há pessoas que, mesmo atarefadas, se desviam do seu percurso para nos deixarem mais pertinho do lugar onde queremos ir (por exemplo, o Sr. Paiva, o Mário e o Gil, o Sr. Olívio, entre tantos outros aos quais me esqueci de perguntar o nome). Outros, ainda, disseram, “se tens tempo e queres ir conhecer um bocadinho da ilha, podemos mostrar-ta”, como aconteceu com o casal Silvana e António Cabral e com a incansável Sra. Glória. E como se fosse pouco, levou-nos a sua casa, deu-nos chá e bolo de chocolate e ofereceu-nos biscoitos para a viagem de regresso. E deu-nos o número de telefone para quando voltássemos a Santa Maria... De uma hospitalidade e graciosidade comoventes.
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